O jeito doce de olhar a vida e os outros, pode trazer sequelas pra vida inteira. Se não soubermos apreciar o gosto amargo que existe por trás do lúdico.
Ela nasceu envolvida de amor. Com muitas pessoas à sua volta, ensinando o que é bom em todos os aspectos. Desde o jeito de se portar ao olhar para o próximo com compaixão. De sorriso fácil e ingênuo. Coração generoso. Nada lhe faltava, cresceu num ambiente propício para um futuro estável e brilhante!
Estudante de um colégio classe A no bairro nobre da cidade onde nascera, observava de perto as diferenças que existiam na sala de aula entre uns alunos e outros. Na terceira série havia o grupinho de meninas se formando... falavam da profissão dos pais, das marcas de seus lápis de cores e suas borrachas perfumadas... sobre suas viagens internacionais, citando grifes, grifes e grifes! percebendo então que ali não se encaixava, sua atenção logo virou para o lado do grupinho dos meninos que parecia ser mais legal, pois eles falavam sobre situações engraçadas, sobre a tecnologia dos brinquedos, esporte e brincavam de pega-pega. Eles eram mais divertidos!
Mas também havia os alunos no centro da sala de aula, que não estavam em nenhum desses dois grupos, digamos que eles eram mais independentes, falavam e brincavam com todos à sua volta, pareciam ser mais livres. Pareciam ser mais simples. Entre eles não existia os melhores e nem os piores, existiam os iguais. Ali sim! o ambiente lhe parecia mais familiar.
Certo dia se ouvia um "zum zum zum" entre o grupo das meninas, sobre uma tal aluna ser filha da dona de um restaurante. Elas riam, interpretando situações de como iriam tratar a menina se um dia fossem ao restaurante de sua mãe, zombavam do tipo de lanche que ela levava pro colégio. Comentavam também sobre um comercial de TV que o colégio faria e que elas foram as selecionadas porque eram filhas de doutores. - Os pobres da escola não participariam! e riam entre si..
Chegando à sua casa, triste, falou com sua mãe sobre o que acontecera no colégio e foram juntas conversar com a direção, foram recebidas, mas por pitadas de ironias... logo então mãe e filha percebeu que ali não seria o local ideal para estar.
Dias depois... na aula de artes a professora pediu para que os alunos desenhassem livremente nas folhas de cartolina que foram distribuídas. Havia desenhos de paisagens, gaivotas, casas rodeadas de árvores no topo de uma montanha, bonecos lutando, animais em sítios, palitos representando a família.. depois de tanto pensar no que desenhar, lhe saiu o desenho de um bombom gigante, enrolado com papel cor de rosa; apesar do sabor amargo do lado de fora, dentro de si ainda permanecia o doce.
No ano seguinte sua mãe fez matrícula numa escola alemã, no mesmo bairro onde viviam...
De onde outras experiências viriam. Mas uma coisa é certa, a menina estava prestes a perceber que o meio amargo poderia ser o mais delicioso dos doces.
" É através dos olhos que as crianças tomam contato com a beleza e o fascínio do mundo".

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